Você é o que você posta? A relação da Geração Z com a internet



14 de março de 2018
por: Marcela Leone

Para quem nasceu a partir da metade dos anos 90, a din√Ęmica da internet j√° n√£o √© mais essa. Rony Rodrigues, fundador da Box 1824, conta como este grupo come√ßa a ressignificar a privacidade nas redes sociais

Montagem com imagem da campanha do verão 2018 da Balenciaga (foto no celular), que coloca a privacidade em xeque (Foto: Agence Bestimage Paris/Balenciaga/Divulgação)

Montagem com imagem da campanha do verão 2018 da Balenciaga (foto no celular), que coloca a privacidade em xeque (Foto: Agence Bestimage Paris/Balenciaga/Divulgação)

Quando a internet come√ßou a se popularizar, no fim da d√©cada de 90, as op√ß√Ķes do que se fazer on-line eram muito mais restritas, mas tamb√©m mais privadas ‚Äď ler, conversar ou baixar arquivos raramente demandava o preenchimento de dados pessoais. Tudo mudou com o surgimento das redes sociais nos anos 2000. Respons√°veis por trazer um car√°ter mais emocional √† internet, elas recriaram a forma de interagir:¬†nicknames¬†substitu√≠ram nomes completos e, mais que fazer novas amizades, Orkut e Friendster eram lugares para manter contato com amigos antigos. Foi nesse contexto que surgiram os¬†likes, uma esp√©cie de medidor de popularidade on-line. Inicialmente usados para confirmar que nossos amigos realmente gostavam do que post√°vamos, com o tempo os¬†likes¬†se tornaram a representa√ß√£o do desespero para agradar a qualquer um e todo mundo, configurando as redes sociais como as conhecemos hoje.

Mas foi com a hiper-realidade que o muro entre os mundos on-line e off-line desapareceu de vez. Ao migrar para o celular, a internet passou a ser onipresente, e os aplicativos se tornaram¬†layers¬†da nossa pr√≥pria realidade. Com alguns deles, como o Instagram e o Snapchat, acabamos ofuscando ainda mais os limites entre o p√ļblico e o privado. No lugar de personalidade, agora temos uma¬†personal brand: o que postamos n√£o √© apenas um retrato de quem somos, mas tamb√©m cumpre a fun√ß√£o de nos manter interessantes e relevantes. O resto da hist√≥ria voc√™s conhecem bem: amigos viraram¬†followers, a comida se tornou identidade (afinal, o mundo precisa saber que voc√™ toma vinagre de ma√ß√£ em jejum) e at√© as viagens, que seriam momentos de lazer e desconex√£o, se transformaram em um compromisso catalogado por hashtags para mostrar como sua vida √© bacana.

Mas, neste cen√°rio de facetas sociais, as novas gera√ß√Ķes j√° ressignificam a privacidade: enquanto os mais velhos n√£o gostam de pensar nos seus dados sendo vendidos para grandes corpora√ß√Ķes ou anunciantes, para os mais novos esses dados importam menos que a liberdade de ser o que quiserem. A gera√ß√£o Z, nascida em meados dos anos 90, j√° sabe que vive em uma sociedade hipervigiada e quer, dentro dela, encontrar espa√ßos seguros para poder relaxar e criar conex√Ķes mais verdadeiras. N√£o deseja mais uma vida na qual projeta-se a perfei√ß√£o em p√ļblico e inunda-se de d√ļvidas no plano privado. No ano passado, o escrit√≥rio de Nova York da Box 1824, empresa da qual sou um dos fundadores e que pesquisa tend√™ncias de comportamento de indiv√≠duos entre 18 e 24 anos, batizou essa gera√ß√£o de GenExit (gera√ß√£o sa√≠da).

Esse grupo que deve deixar as redes sociais ou decretar o fim delas (pelo menos como as conhecemos hoje) √© formado por jovens que n√£o encontram paz na internet, pensando diariamente se devem cancelar suas contas, gerando engajamento zero e diminuindo seus posts ao m√≠nimo. Previs√Ķes tamb√©m apontam o decl√≠nio deles na for√ßa de trabalho formal, nas universidades, nos partidos pol√≠ticos ‚Äď um escape aos moldes sociais tradicionais em geral. E eles desenham um mundo p√≥s-personal brand: que valoriza mais as ideias que a identidade; o anonimato mais que o poder. Acreditam que a fluidez seja mais interessante do que se tornar uma ‚Äúmarca‚ÄĚ.

Cansaram de um mundo¬†fake¬†e anseiam expor seu lado mais humano, sem medo do rid√≠culo, em conex√Ķes mais √≠ntimas. O problema √© fazer isso em uma internet massificada e na qual a m√©dia de idade dos usu√°rios tem aumentado, onde estes jovens dividem o ambiente virtual com seus pais e av√≥s. Nessa nova maneira de entender a privacidade, preferem se aventurar em ambientes mais controlados. Isso tem feito com que migrem para programas de trocas de mensagens, plataformas de games e grupos fechados onde as intera√ß√Ķes rolam mais livres e com um n√ļmero mais restrito de amigos ou comunidades de interesse. O direito de ‚Äúser deixado em paz‚ÄĚ √© o que eles querem ‚Äď e essa sempre foi a base da privacidade.

Fonte: Vogue | Foto: reprodução 

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