Black Friday e o consumismo exagerado



27 de novembro de 2015
por: Marcela Leone

blackfridaydeathcount

Os Estados Unidos são uma nação bem complicada. Eles têm muitas vantagens e características admiráveis – mas, na contramão, algumas situações bizarras também. Como é o caso da Black Friday: é a sexta-feira de promoções e preços baixos que vem logo depois do dia de Thanksgiving (Dia de Ação de Graças, na quarta quinta-feira do mês de novembro), comemorado na América do Norte. Basicamente, na quinta-feira, a pessoa tem como obrigação agradecer por tudo aquilo que ela possui. E, ironicamente, sai para comprar um monte de coisa que ela não precisa (realmente) no dia seguinte, a tal da Black Friday.

Só que não é simplesmente “comprar”. Isso todos fazemos. Todos compramos – até porque, inclusive, essa data já foi importada para outros países, como o Brasil. A questão é que ela é uma materialização de todos os problemas que o consumismo exacerbado pode causar.

Primeiro, para aproveitar os preços baixos, muita gente acampa em frente às lojas. E, quando as portas se abrem, rola uma debandada violenta (no sentido literal da palavra) para dentro do comércio – e todo mundo sai pegando o que pode. Violenta mesmo, tanto que já teve gente que morreu pisoteado pelos outros consumidores que invadiam a loja como rinocerontes descontrolados.

Gente que morreu, no caso, significa 7 pessoas. A última delas em 2013. E outros 98 já se machucaram. Isso é conhecimento público porque existe até um site, chamado BlackFridayDeathCount.com (contagem de mortos na Black Friday, em tradução livre), que contabiliza as mortes na Black Friday desde 2006.

Quer saber o que mais o consumismo exagerado pode provocar no mundo? O documentário The True Cost (O Verdadeiro Custo, em tradução livre) mostra o que acontece com cada peça de roupa baratíssima vinda da China ou da Índia, ou mesmo dos demais tigres asiáticos, como Bangladesh, até que ela chegue às prateleiras por alguns míseros reais, dólares ou euros para você. Vale a pena perder duas horas do seu tempo assistindo a esse filme, em troca de evitar muito estrago no futuro.

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Às vezes, precisamos de coisas para viver. Você precisa de uma mesa, de um sofá, de uma televisão, de geladeira, de roupas, sapatos e muito mais. Todos precisamos, de certa forma. Com isso, não quero dizer que vamos morrer se não tivermos um sapato. Mas para existir funcionalmente, precisamos de sapatos. Mais de um par, inclusive. Precisamos, por exemplo, de calçados para nos exercitar, para trabalhar, para sair, para ir a uma festa ou evento social, para diversas funções diferentes. Então são vários sapatos.

Mas sempre há um limite, afinal, você não é uma centopéia. E infelizmente algumas pessoas, sorvidas por esse frenesi de (necessidade de) consumo, são impelidas a comprar. E depois comprar mais, e mais, e mais… Seja pela endorfina que o ato de comprar libera no seu cérebro, seja por algum gap emocional ou social que ela tenha, seja por insegurança. Não importa. Ela assume um papel de acumulador de itens que são, no caso, desnecessários, além de fomentar essa realidade que você vai ver no documentário citado acima.

Você não precisa de 65 cuecas ou 72 camisas. Sério. Garanto que é possível viver muito bem sem as 72 camisas. É possível viver muito bem com menos da metade disso. Enquanto, por outro lado, tem gente que não tem dinheiro para comprar algumas poucas. E aí eu não estou falando do coitadinho na tribo africana, que não tem um pão para comer, ou do desabrigado que dorme em cima de uma caixa de papelão amassada. Estou falando de uma pessoa comum, do trabalhador simplório que acorda bem cedo, toma umas 2h de ônibus, metrô, trem ou afim para chegar ao trabalho, rala o dia todo por uns trocados e passa o mesmo perrengue para voltar pra casa. Eles são a maioria do Brasil, se você ainda não sabe disso. Se eu fosse um desses trabalhadores, que ganham um salário mínimo por mês, talvez faria fila em frente a uma loja para tentar comprar uma geladeira ou fogão por um preço ridiculamente baixo. Só que há ainda aquele papo de que, se você vai pagar um preço muito baixo na Black Friday, espere um eletrodoméstico com qualidade compatível a esse preço. As marcas até fabricariam produtos mais “toscos” exatamente para a data, para compensar a queda no preço.

O nome “Sexta-feira negra” até que cai bem, se você parar para pensar.

Por: rafael Calixto | Imagens: reprodução 

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